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MEU POVO

MEU POVO

set 10

Ah, que felicidade falar com alguém próximo, que se encontra distante geograficamente. De fato, essa tal de tecnologia pode ser um ganho imenso aos nossos corações. De repente, um telefonema e pronto: a distância encurta.

Descobri que Sementeiras pode virar ponte entre mim e os meus amados, situados a quilômetros de asfalto, terra batida e porteira quebrada. Porteira para sempre aberta, emoldurando o terreiro, onde, tantas vezes, ‘trigueiro’ respondeu aos meus apelos com um preguiçoso abano de rabo, para depois se levantar com os latidos habituais atrás do gado resistente ao sol, ao calor e resignado aos aboios inigualáveis do meu povo, da minha gente.

Meu povo, de calos nas mãos, sabe pegar com carinho uma rede para meu restaurador balanço. Meu povo que evita chorar, sem evitar a emoção. Varre o alpendre como a catar feijão na palestra costumeira, falando de quem se foi, de quem chegou, atualizando e repartindo o coração com quem está presente. Meu povo de riso alto, solto, cheio de cumplicidade e compromisso com o bem. Qualquer dia pode ser o primeiro de abril, pregando peças nos seus iguais, para logo em seguida rir às gargalhadas. Histórias que rendem dias, meses, uma vida inteira.

Assistimos aos nascimentos dos netos, sobrinhos nossos, que crescem com bravura e alegria em meio ao ciscado das galinhas, à poeira dos cavalos, ao cantar dos pintos, tão fartamente alimentados por quem chega de longe, carregando na mala um punhado de saudade para misturar com o milho, rapidamente providenciado por quem sabe alimentar a alegria de uma criança.

Sim, este é o meu povo. Alguns pequenos já escrevem ‘Neto’ no final do nome e parecem perpetuar algo que já está no gene, na genética familiar: a simplicidade. Quanto ela custa? Nada. Apenas um sorriso e abraço sinceros. Apenas valores semeados ao longo do tempo em terra brandamente adubada pelo bom exemplo. Exemplo de honestidade, de dignidade, de amor. Exemplos antigos, anteriormente trabalhados pelos nossos queridos ancestrais, que assistem tranquilos a colheita efetuada. Estes exemplos não morrem, não fenecem. São sementes germinadas e crescidas, as quais terão a missão de plantarem também. E assim, como diria na linguagem infantil: começar tudo outra vez.

 

Estas linhas molhadas vão para todos os filhos do Ludovico. Muito obrigada por tudo.

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