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SALA DE ESPERA

SALA DE ESPERA

out 07

Vestido, na maioria das vezes, estampado por pequenas flores. A gola sempre arrumada, fechada em botões bem alinhados. Descem até a altura da cintura, singelamente marcada por um cinto fino, como são os seus gestos. O cinto não pode faltar, como também a bolsa que carrega o crochê, pacientemente confeccionado pelas mãos ágeis, embora sem pressa. Aprendeu que a pressa é realmente desnecessária; além de inimiga da perfeição, como todos dizem, é também do prazer.

Parece que foi ontem… Natural de Recife foi parar noutro Estado. Casou-se como convém a toda donzela da época e, além do marido, ganhou os seis filhos dele. Foi muito trabalho! Talvez por isto mesmo tenha concebido apenas um. Orgulha-se de ter deixado “todos de anel no dedo”, mas restam somente dois vivos. Mais de 30 anos em outra cidade não foram capazes de apagar as lembranças de Recife. Sua cria veio aportar aqui. Após o falecimento do esposo, retornou ela também à terra natal.

O tempo realmente passa. Amigo, camarada… Seguem firmes, ela e o tempo. Postura ereta, pernas cruzadas, cabeça baixa a trabalhar no crochê. Não entra sem dar um bom dia, não senta sem dar um sorriso. Vai caprichando, ora trabalhando ora procurando algo ou alguém com o olhar. Vê o relógio…ainda não passou. Ele, o tempo, ainda está lá. Seu filho também ainda está, vivo, porém sem tanta vida como ela. Parece um menino, pensa. É um menino, sente. “Separou-se da mulher e ficou assim, depressivo, parece que o mundo parou”. “Eu já tenho quase 90 anos, minha filha, não posso parar”. Seu olhar, no entanto, denuncia que gostaria. Gostaria de parar. E sua voz obedece: “por mim não saía de casa…acredita que não tenho mais coragem de ir a uma missa?”. Acredito. “Eu só saio para acompanhá-lo”.

A vida contada em anos parece se multiplicar. As rugas não negam o quanto viveu. Cada dor, cada sorriso, noites em claro, surpresas, alegrias inusitadas, tristezas inesperadas. Tudo está desenhado na face, no corpo inteiro. As pernas ainda sustentam o interesse pela vida, mas estão cansadas. Nem tudo é como o crochê, nem tudo pode ser refeito, muito menos usando a mesma linha. Lição que talvez o filho não tenha ainda aprendido para continuar reciclando tristeza e teimando queixume. “Ele deixou de dirigir”. Sim, acredito, ele, de fato, deixou de dirigir.

Olho aquele rosto simpático, bonito, aquele corpo esguio de 89 anos, os cabelos tão zelosamente penteados de um branco que ofusca os olhos apressados. Digo algo e provoco risos que me alegram demais. Penso que a vida vale a pena se não teimarmos em refazê-la como uma peça de crochê, se a fizermos com capricho, aceitando, contudo, as falhas como parte inevitável e importante do trabalho. Serão as provas do esforço e da nossa humanidade. Deus sabe de tudo isso e reconhece nossa tentativa, dando-nos sempre boas linhas para trabalharmos e inspiração para fazermos melhor. Sem dúvida, Ele ama os filhos e, certamente, ama muito as mães. Penso que preciso aprender mais com elas.

Gostaria de conversar mais, porém a hora chega, a espera acaba. É tempo de levar outra mãe em casa. Outra mãe e outra história, esta mais conhecida, cujo roteiro também ainda está sendo escrito.

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