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ESPELHO, ESPELHO MEU…

ESPELHO, ESPELHO MEU…

mar 28

Há dias em que o melhor é não sair da cama. Hoje, por exemplo, dores por todo o corpo, uma ressaca de doer os ossos. E olha que ele ontem apenas discutiu com ela. “O que não faz uma mulher, quando não quer mesmo enxergar…tantas provas, sinais, tudo tão visível, lógico, claro… cega!” – concluiu.

Pois bem, na véspera, após perambular bastante, encerrou sua noite em pé à beira do penhasco, onde o casal costumava ir para lembrar da brevidade da vida e da urgência dos dias. Lá ficou sozinho, imaginando escrever dezenas de poesias para ela. Parecia um louco de tanto que se demorou no mesmo lugar, na mesma posição…em transe. Foi despertado por um transeunte que chegou de mansinho e o agarrou pelas costas. Quase morreu de susto, pensando ser sequestro. Depois quase morreu de rir e constrangido saiu, justificando, ou melhor, tentando explicar sua posição, seus pensamentos e tranquilizando o bem intencionado rapaz de que estava ‘tudo bem, tudo bem…até a linha do trem’. “Ai, Deus do céu, esse meu humor negro ainda vai me colocar em apuros”.

Agora estava ele para mais um dia. “Vou calibrar os pneus, antes de ir ao trabalho. Devo pegar o velho trânsito, mesmas manchetes no jornal, mesmo bom dia aos colegas…Vamos lá, já é hora. Entrar noutro transe aqui pensando já é coisa mesmo de doido”. E, assim, ele começou sua rotina. Rápido levantou-se. Tomou o banho com alguma urgência, após fitar no relógio a hora adiantada e lembrar da reunião importante na empresa. Pressa, pressa, sempre ela. Desta vez, não deu tempo nem para um cafezinho.

“Melhor deixar a calibragem para outro dia”.

Saiu em disparada. Na cabeça um só pensamento: chegar rápido. 20 quilômetros o separavam do trabalho, nunca chegara em tão pouco tempo.

“Que trânsito ótimo!”

Respirou aliviado ao estacionar o carro. A rua, sempre tão concorrida, estava quase um deserto, não, estava mesmo um deserto. “Que estranho!”

Enquanto anda do seu carro à entrada do prédio, o celular toca insistentemente. “Mas o que Tito quer a uma hora dessa?” O vidro espelhado da empresa, neste instante, refletiu sua figura apressada; a porta automática resolveu não abrir. Fechada. “Ora bolas!” Decidiu atender ao celular.

_ Cara, onde é que tu estás? Só está faltando você. Jogar sem goleiro é meio difícil, né, meu irmão? Fernando passou na tua casa para te pegar, interfonou e nada.

_ Ham? – disse, ao mesmo tempo que, enfim, compreendia o porquê do trânsito livre, da rua vazia, da brevidade para chegar, da pouca gente no percurso, da porta fechada…tantas pistas…cego! Em plena manhã de domingo, se encontrava na entrada do trabalho. “Que vexame!”

Olha ao redor, o vigilante era a única testemunha. Acena totalmente sem graça e dá meia volta, como quem erra um caminho conhecido.

Desligou o celular após um desajeitado: “tô chegando”, porém ficou a pensar: “que danado de bola eu irei agarrar hoje, depois de uma furada dessa?”

É, de fato, tinha que concordar: “o que uma pessoa não faz, quando não quer enxergar!”

3 comentários

  1. Espelho de um… Espelho de muitos!

    Passei para deixar aquele abraço e já antecipar uma Semana Sta em completa paz de espírito!

    Dar-se paz a si mesmo é presentear-se!

    Aquele abraço minha amiga!

    29 de março de 2010 08:33

  2. Halano
    2

    Cara Comadre. Se não fosse pela posição de goleiro, eu poderia até me enquadrar no seu personagem. Belo texto ou não sei se diria “espelho”. Parabens.
    Halano

    29 de março de 2010 19:53

  3. Pois é, esse espelho é de todos nós, sobretudo, quando só conseguimos enxergar nossas mazelas e particularidades apenas nos outros e não em nós mesmos. Este é, Pachelly e Halano, uma brincadeira pra falar do narcisismo rotineiro da contemporaneidade.
    Abraços.
    Magna

    30 de março de 2010 06:35

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