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PEQUENO RECADO A BANDEIRA

PEQUENO RECADO A BANDEIRA

abr 20

Esqueci teu aniversário, lembrei apenas do índio que compartilha o dia teu. Tu, pequeno como te julgavas, deve se alegrar por partilhar a data com estes esquecidos de tudo. Eles que um dia foram muitos, como testamento, não deixam nem terra nem água, pois não consideram nada como seus. Deixam, como tu: a vida, a lida e o muito do que não têm.

Assim, Bandeira, em nome de todos os esquecidos, que teu nome seja asteado em todas as estações, sobretudo no inverno, aquecendo os desabrigados.

Assim seja.

É pra Bandeira, mas a publicação deste vai, especialmente, para meus generosos amigos do blog No Toitiço e o poeta Tadeu Rocha, cujo pedido acabo de responder com esta publicação.

10 comentários

  1. Arsenio
    1

    Belo, Belo minha doce amiga.
    Como diria o próprio Manuel.

    Que, decerto, lá do Alto, nos acena, e emocionado, sorri.

    Vale a pena lembrar deste antológico poema dele, escrito em 1947…

    " O bicho

    Vi ontem um bicho
    Na imundície do pátio
    Catando comida entre os detritos.

    Quando achava alguma coisa,
    Não examinava nem cheirava:
    Engolia com voracidade.

    O bicho não era um cão,
    Não era um gato,
    Não era um rato.

    O bicho, meu Deus, era um homem."

    Rio, 27 de dezembro de 1947

  2. Tadeu Rocha
    2

    Magna, grato pela atenção. Gostei tanto do poema que não consegui ver o Sementeiras sem ele. João Carlos lá no fusca evidenciou os versos que mais me agradaram ("teu nome asteado/aquecendo os desabrigados".
    Deixo um poema de Bandeira no qual ele utiliza versos de vários outros poemas de sua autoria. Abaixo do poema uma nota do poeta.

    ANTOLOGIA

    A Vida
    Não vale a pena e a dor de ser vivida.
    Os corpos se entendem, mas as almas não.
    A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
    Vou-me embora pra Pasárgada!
    Aqui eu não sou feliz.
    Quero esquecer tudo:
    — A dor de ser homem . . .
    Este anseio infinito e vão
    De possuir o que me possui.

    Quero descansar
    Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei
    Na vida inteira que podia ter sido e que não foi.

    Quero descansar.
    Morrer.
    Morrer de corpo e de alma.
    Completamente.

    (Todas as manhãs o aeroporto em frente me da lições de partir.)

    Quando a Indesejada das gentes chegar
    Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
    A mesa posta,
    Com cada coisa em seu lugar.

    Este poema é um centão. A palavra "centão" nada tem a ver com "cento"
    e vem do latim "cento, centonis", que significa colcha de retalhos. . . .
    Tive a idéia de construir um poema só com versos ou pedaços de versos meus
    mais conhecidos ou mais marcados da minha sensibilidade, e que ao mesmo
    tempo pudesse funcionar como poema para uma pessoa que nada conhecesse
    da minha poesia. (De uma carta de Manuel Bandeira a Odylo Costa Filho)

  3. Magna Santos
    3

    Meus amigos, nem sei o que dizer… Receber de vocês tão preciosos presentes é muito muito muito bom.

    Arsênio, havia esquecido deste poema. Meu Deus, como é forte e triste e digno.

    Tadeu, lindíssimo! Não conhecia. Belíssimo. Adorei a ideia do Bandeira. Fabulosa.

    Muitíssimo obrigada pelas palavras, por tudo.
    Beijão.
    Magna
    Obs.:Tadeu, eu que agradeço. A atenção foi tua, pois não ía mesmo publicar aqui.

  4. Arsenio
    4

    Genial, per si, esse poema colagem de Bandeira, que Tadeu nos trouxe.

    Cada verso, um universo particular do Poeta.
    Um poema singularíssimo.
    Tadeu é assim. Como o poema inusitado de Manuel.
    "Uma Faca Só Lâmina", para lembrarmos de nosso outro contemprâneo, tal qual Bandeira: João Cabral de melo Neto.

    Abraços para os dois.
    Magna e Tadeu.
    E uma saudação eterna para Cabral e Manuel.

  5. Dois Rios
    5

    Um pequeno GRANDE recado, Magna!

    És uma autêntica tecelã de palavras.

    Beijo,

    I.

  6. Magna Santos
    6

    Arsênio, ótimo lembrar do João Cabral de Melo Neto. Salvo engano, ele e Bandeira eram primos. Eram?
    Beijão pra você, meu amigo.

    Inês, muito obrigada.
    E tu tens, como sempre, arrasado no Dois Rios. Tenho acompanhado tudinho, todas as declarações de amor. Belíssimas.
    Beijão.

    FELIZ PÁSCOA PARA VOCÊS E TODOS OS SEUS.

    Magna

  7. Arsenio
    7

    Minha amiga, eram sim. Não legítimos, mas de 2º grau. Irmãos na poesia, Cabral não conseguia ficar à vontade perto de Bandeira, tamanha era sua admiração. Ele, homem de poucas palavras, dava um jeito e sempre levava Vinicius quando iam encontrar o Poeta ,que àquela altura já morava em Copacabana.

    Feliz Páscoa, minha amiga. Que Deus proteja a ti e a todos nós.

  8. Pachelly Jamacaru
    8

    Boa Páscoa amiga, tudo lhe seja espiritual!

    Abraços

  9. João Carlos
    9

    Magna,só um minutinho que estou anotando.Depois de tanto biscoito fino quem precisa de chocolate ?

  10. Magna Santos
    10

    Depois de me nutrir no teu Sábado Som (que foi No Toitiço), posso te responder: ninguém.
    Abração, meu amigo.
    Magna

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