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ENTRE UMA NOTA E UM PASSO

ENTRE UMA NOTA E UM PASSO

jun 12

Teve algumas frustrações na vida, mas as primeiras contáveis foram marcantes, as incontáveis também, claro. Aos cinco anos, já sabia o que era seca ao fitar os olhares fatigados dos familiares, mas agarrada à chupeta pensava: “como existe alguém capaz de viver sem um consolo*, meu Deus!”. Para ela, era algo inimaginável. Como era também surreal, uma menina, num pé de serra, sonhar com aulas de piano e de balé. Pois bem, o primeiro foi mais fácil de realizar e toda semana estava lá: chupeta à boca, dedinhos embalados pelos exercícios da professora. Entrar naquela casa já era uma festa: sua arquitetura moderna, seus corredores enormes, a escada em curva, lembrava um castelo. Sua professora, então, era uma doce criatura, fazendo-lhe acreditar que era possível ser uma boa pianista. E ela ía às aulas, igual Branca de Neve, cantarolando. Mas, eis que a cumplicidade de uma mãe e uma professora mudaria algo. Um belo dia, ao sorrir e mostrar à professora o dente mole que tanto sua mãe teimava em arrancar, este foi retirado sem dó nem piedade e não houve jeito de fazê-la voltar às aulas, nunca mais. Nunca mais também retornou a chupeta à boca. Ficou sem consolo, sem dente e sem vontade alguma de tocar piano.

Retirada da sua terra, anos mais tarde, retomou o sonho de bailarina, quando foi matriculada em uma pequena escola de balé. As aulas lhe davam outro gás, chegava em casa, ensinando todos os passos a quem quisesse aprender. Porém as aulas lhe tiravam alguma força física, porque, sem exceção, cada dia de aula correspondia a uma queda, uma cicatriz. Ninguém entendia, muito menos ela. E, ao final de um mês, a zelosa mãe perguntou preocupada à professora se a filha levava jeito pra coisa. Eis a resposta fatídica que colocaria uma pá de terra sobre seu sonho de bailarina: “ela é muito esforçada”. Mãe sertaneja, sofrida, viúva, sacrifício para subsistência, filha no balé? Só se fosse com muito talento e sem nenhum acidente. Esforço ela teria que ter de sobra para outras tarefas da vida.

Hoje leva a vida, acurando sua escuta para os sonhos e medos alheios. Segue vivendo, diverte-se com a vida. Entre uma nota e outra, um passo e outro, adora contar histórias, sobretudo, hilariantes, fictícias ou não, como esta.

*consolo=chupeta, na região do cariri cearense.

7 comentários

  1. Magna Santos
    1

    Recebi por email o seguinte comentário de um velho amigo e conterrâneo. Não resisti e divido com vocês: "se fosse letrado como você contaria a de um menino que, dispondo apenas de uma prata de 5 centavos (quando um pão custava 10), propôs ao vendedor que passava todos os domingos no sítio onde morava, transportando a preciosa iguaria em caixotes de madeira sobre o lombo de um jumento, nos seguintes termos: "seu Antônio, o senhor me vende a banda de um pão?"".
    Obrigada, meu amigo. Ri demais! Depois eu é que sou gaiata.
    Abraço!
    Magna

  2. Magna Santos
    2

    Ele ainda mandou a conclusão da história:
    "esqueci de mencionar a resposta do Sr. Antônio que, com a voz mansa e penosa por não poder atender o desejo do cliente falou: "posso não, meu filho, porque não tem quem compre a outra banda".

  3. Dois Rios
    3

    Magna querida,

    Fica amplamente evidente que o piano e o balé não seriam tão abrangentes e emocionantes para os espectadores, quanto as lindas histórias que coube à menina da chupeta nos contar.

    Adorei a prosa do seu conterrâneo, rs…

    Beijo,
    I.

  4. Beta Martins
    4

    Legal Magna, eu tb fui largando por ai um monte de sonhos e frustrações,c certeza eles são os rabiscos da nossa "persona",nada seria completo sem eles!
    Vc vai p São Jõao no Cariri? to c vontade de ir, sentir o cheiro de lenha queimando,frio descendo da chapada ,conversa p boi dormir ..
    Acho q eu compraria a outra metade do pão rsrsrs c sabe q sim.
    Bjos amiga
    Beta Martins

  5. Magna Santos
    5

    Inês, de qualquer forma, ainda xingo a professora de balé de incompetente. Meu conterrâneo é presepeiro, esta é apenas uma das histórias. Não sei como se criou, o bichinho…

    Beta, saudade de nossa conversa. Este ano deixei teu aniversário passar batido, mas não foi por esquecimento.
    Não vou ao Cariri este ano…pense numa saudade de acender aquela fogueira, deitar na rede e conversar miolo de pote!
    Ah, e com certeza tu comprarias a outra metade. Tu conheces inclusive a figura.

    Obrigada pelas palavras de vocês.
    Beijão!
    Magna

  6. Luna Freire
    6

    Então és tu a bailarina e pianista?
    Pois então, que tal tentar de novo agora que não tens mais dente pra cair??? Bjos.

  7. Magna Santos
    7

    Acho que vou deixar pra próxima, amiga da onça!
    Beijos!
    Magna

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