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QUANDO HISTÓRIAS VIRAM REALIDADE

QUANDO HISTÓRIAS VIRAM REALIDADE

nov 23

Ela se atola em exigências. Diante do espelho reflete sobre o muito que deixou de ser. De tanto deixar, já não sabe quem direito é. Sabe, é certo, por exclusão: não sou assim, não sou assado, não gosto disso e daquilo. Autoconhecimento por exclusão é tudo o que tem. Conhecer-se nas negativas.

Suas interrogações viajam a velocidade da luz. Não consegue sossegar direito o espírito diante de tantas questões. Parece que o mundo resolveu parar na sua cabeça por imensas horas. É quando lembra da infância e de um dos seus novembros:

Estava sentada na calçada de casa com o braço engessado. Ele havia quebrado, após um voo do muro ao chão, onde parou com um gosto de sangue na boca. Sentiu a dor no braço, como se carregasse 200 quilos. Chorou até a mãe lhe escutar e levá-la ao hospital. O resultado foi gesso e atenção de toda a meninada, o que achava ótimo, afinal, os pudores da sua mãe lhe tiravam a liberdade de brincar na rua, sempre lhe restando a janela para espiar as brincadeiras e trelas de todas as crianças.

Sim, este foi um novembro inesquecível. Nunca pensou que uma fratura lhe rendesse tanto prazer. Inventou histórias ótimas sobre seu braço. A cada criança que perguntava, aumentava um pouquinho o enredo, mudava o roteiro, acrescentava e tirava personagens com uma habilidade de fazer inveja ao mais renomado escritor. Os olhares dos seus iguais cresciam de tamanho e ganhavam um brilho de suspense e curiosidade, fornecendo mais estímulo à autora. Em uma das suas contações, fez do parapeito um verdadeiro palco, dando asas à imaginação. No entanto, a  mãe chegou de mansinho e desfez a história da menina em uma tacada só. Desmentiu tudo o que a filha havia criado, informando ao pequeno público toda a verdade. Não admitia mentiras nem por brincadeira. A menina chorou como se lhe houvesse quebrado o corpo inteiro. Três dias de muitas lágrimas e sua mãe sem entender o que chamou de exagero.

Hoje ela vive de escutar histórias, sondar-lhes o íntimo e conhecer-lhes a motivação. Tem encontrado muitos escritores pelo caminho. Escritores como ela, que não escreve uma linha sequer, porém sabe de todas as letras. O problema é que, de vez em quando, não se reconhece mais nas histórias que vive e estaciona no espelho para se refletir. Escapole para uma região insondável, cheia de signos desconhecidos, pontuações confusas que lhe privam o raciocínio, mais que isso, lhe distorcem muito a visão e fica com esse sentimento de estranheza a querer desenhar a própria pessoa com pincéis alheios.

Negativas então é tudo o que lhe resta, porque logicamente não consegue se encaixar. Negativas que desenham uma silhueta ainda incompleta. No entanto, pondera: não seríamos todos assim? Silhuetas incompletas, desenhos ainda em construção? Foi aí que lembrou de uma parte daquele novembro, uma parte que havia, de fato, esquecido. Lembrou que após os três dias de choro, bateu a sua porta Fernandinho, o menino mais inteligente da rua. Ele entrou devagar no seu quarto e falou:

_ Clara, eu vim para saber o que você vai fazer depois que o braço colar? Será que dá pra gente experimentar pular também do muro de Dona Mariquinha? Beto diz que não tem coragem, mas eu sei que você nos ensina a tentar.

Antes que ela pudesse responder, ele continuou:

_ Outra coisa, a gente queria saber também se você não vai nunca mais nos contar histórias como aquelas.

12 comentários

  1. Magna querida,

    Casa nova e bonita. No mais, os sempre ótimos textos que nos fazem viajar na imaginação, tal qual a Clara da sua excelente história.

    Beijo,
    I.

  2. EDGAR MATTOS
    2

    Magna: Só não se negue o ser escritora, nem o ser poeta. Até porque isso pode ser indolor, pois você não precisa de levar quedas na vida para nos contar tão lindas histórias

    • Nossa, Edgar! Nem sei o que te dizer…

      Mesmo que se caia, há companhias que chegam com o apoio pontual, o curativo certeiro, untado com muito carinho e generosidade. Gente que faz qualquer um descer da janela e sair brincando pela rua (sem medo) para depois contar e viver ainda mais histórias.
      Muito obrigada por tudo.
      Abração!!
      Magna

  3. Meu pai do céu! Que coisa linda, um pouco dorida, mas linda narrativa!

    Fiquei ainda com mais pena da mae, porque sabia de engessamento mais do que o doutor que engessou o braço da menina. Privou de certo modo, o mundo, de uma contadora de histórias maravilhosa, mas se tornou numa escutadora, ímpar, e de uma generosidade que transforma as próprias lacunas e as vagas que se depara no espelho, amiúde, em signos desconhecidos, sim, é certo, mas transmuta o insondável em poesia e emoçao! Lindo texto, Maga, como sempre!

    Deixo um beijo, e vamos combinar a hora da ida à Biblioteca?

    • Eita, Val, tu vais na ferida da mãe, a qual poderia passar desapercebida (ou despercebida?). Obrigada! Maravilha! É isto! Cada um com suas dores, não herdadas, mas, sem dúvida, transmitidas.

      Quanto à Biblioteca, aproveito e convido a todos para visitar o blog da Biblioteca do Coque(link ao lado). No próximo dia 26, o encontro será demais!

      Beijos.
      Magna

  4. Magna,

    Gosto sempre da sutileza que usas, pois é tua marca registrada. A pequena contadora de histórias encontrou seu público, ávido por deixar a imaginação voar, seguir em frente sem regras nem gravidade.

    Muito bonito, delicado e bem contado.

    Dimas

  5. Domingos Sávio
    5

    Estou verdejando aqui contigo. E mais não digo. Lembrei de Caio Fernando Abreu (lá do Hubble) que Gabi anda devorando nesses dias de cão como ela mesmo diz. Que aliás já passaram. Agora é esperar o resultado do vestiba. Disse então Caio: “Crie laços com as pessoas que lhe fazem bem, que lhe parecem verdadeiras”.
    Salam Aleikum.
    Amém.

  6. Magna querida,

    Queria saber quando é que você vai voltar a nos contar histórias como essa?

    Beijo,
    I.

    • Ah, Inês, espero ter te respondido com a última publicação.
      Este final de ano – como sempre – tem diminuído as horas.
      Obrigada pela pergunta, “Fernandinho”.
      Beijão, pescadora!
      Magna
      Obs.:Dois Rios está uma belezura!

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