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DESENOVELAR

DESENOVELAR

dez 05

A notícia da ausência é anunciada antes da espera. Sobra-lhe mais tempo para almoçar e descansar. De quê? Abre a boca inúmeras vezes, como a reter um pouco mais de ar. Parece-lhe pouco as horas do dia. Costuma avançar pela noite, tentando aproveitar o tempo que de longe lhe acena e de perto lhe dá petelecos:

_ Acorda, menina! Não, dorme, menina!

Enquanto a insônia perdura, vai-se acostumando a tratá-la com atenção. Há que servir para algo, ao menos. Há que deixar um rastro de paz, de produção. Ah, produção…

_ Queres produzir sempre? – pergunta-lhe uma voz amiga.

Paz e produção parecem irmãs gêmeas. Às vezes temperamentos diferentes, às vezes semelhantes, como todos os irmãos. Porém, aprendeu que nasceriam juntas, por isso custa-lhe o perdão nas horas zeradas, perdidas ao nada. Não enxerga benefício na ociosidade.

Enquanto teima consigo, descobre um novelo esquecido pela mãe de uma das crianças, na sala de espera. Brinca com o novelo entre os dedos. Prende em cada dedo uma linha e vai brincando igual menina. O dedo médio parece sustentar mais linhas que os demais. O mindinho dá um toque de maestria e divide a borda com o polegar – senhor sossegado, distante dos demais com ares de distraído. O anelar parece espremido no meio de tantos ganchos. E a dona de todos eles segue com os olhos de pedaço em pedaço, afastando-se de tudo. Uma música ao fundo declara que Bach era mesmo muito inspirado. Quantas horas será que levava para criar uma partitura? Quantos dias? Por que questões sobre produção estão sempre lhe recorrendo à cabeça? Resolve esquecer e apenas ouvir. Ouvir e  desenovelar.

Ao som, então, o novelo vai desfazendo-se inteiro, mudando de endereço: da cesta de perdidos aos dedos de uma inquieta involuntária.

Enquanto não há respostas para suas perguntas, o relógio segue ágil trabalhando. Para ela, agora ele não tem importância alguma. O mundo parou nos seus dedos, suas mãos e seus ouvidos. Para ela o que importa é aquele momento, o instante preciso, o desenovelar. Como uma criança que acaba de receber o brinquedo tão esperado, sorri:

_ Sim, desenovelar…desenrolar, desfazer.

6 comentários

  1. Magna!

    Em poucos dias viajarei ao Brasil. Quando voltar, estarei aqui no sementeiras para compartilhar. Perdoe minha ausência, mas não quero perdê-la. Pelo carinho e lindas palavras em meu blog sou muito grata… e tão feliz.

    Boas festas!
    God jul!

    Beijo no coração

  2. Não atino para quanto tempo se leva para a criação de uma partitura; como também não imagino quanto pode medir a rigidez do relógio para o “desenovelar” (adorei o termo, apropriado para os novelos e novelas que nos assomam durante toda a vida) situações que se apresentam cotidianamente. Mas sei como deixar o coração esborrando de emoção: ler-te! E nada mais digo, porque sem quase nada dizer, desvela-me como poucas…

    E deixo a qui esse link:
    http://cantodaboca.blogspot.com/2007/05/caixa-de-pandora.html

    bem dentro da atmosfera que regitraste no Canto.

    Beijãozão, Maga!

    P.S.
    Ana Cláudia chega dia 16, e ela quer nos encontrar, vamos tentar juntar todo mundo?

    ;)

  3. Magna,

    Creio, você sabe melhor do que eu, que assim funcione a cabeça dos criadores, inventores, escritores, poetas e afins.
    Falta tempo para o tanto que ela (a cabeça) germina.

    A insônia, por sua vez, é meio como um parênteses dentro desse tempo. Enfim, como desenovelar sem produzir? Como fazer brotar as tantas sementes com um tempo cada vez mais minguado? Sementeiras que o diga, rs!

    Lindo, minha querida. Como sempre!

    Beijo,
    I.

  4. Magna, fazia tempo que não passava por aqui.

    Que lindo seu blog ter virado um site, fico feliz que sua sementes cresceram!

    Beijoss!

  5. Magna,

    Há uma sensação de perda quando se passam as horas e não há ideia ou coragem de rabiscar. Contudo, é preciso o novelo, às vezes, para fazer passar o tempo, pois se preenchem os espaço também com o ócio.

    Bem, meu novelo é outro, mas novelo. Novelar é preciso, assim como viver.

    Abraços,

    Dimas

  6. Ilaine, Boca, Inês, Gaby, Dimas, desculpem a demora e a resposta apressada. Estou, como a personagem, tentando me desenovelar.
    Muito obrigada pela atenção e palavras de todos vocês.
    Abração!
    Magna

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