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DESPERTAR

DESPERTAR

jan 22

Nesta manhã, resolveu que adiaria seu despertar para não passar mais um dia como sonâmbula. Deita-se novamente. Espicha-se na cama como gato, ronrona e tenta serenar a cabeça que teima em pensar. Adormece. Acorda com os dois pés fora da cama, pois nunca foi chegada a superstições. Tropeça no brinquedo esquecido pelo filho na noite anterior, quando brincou até os dois desmaiarem de sono. E lembra das histórias que inventou. Ri sozinha da sua imaginação. O filho, certamente, deve achá-la uma heroína por tanta aventura contada como se fosse um relato.

_ Vai, mãe, que mais você fez? E você não teve medo do leão?

Ah, na imaginação ela não tem medo de nada. Enfrenta cobra, jacaré, elefante. Enfrentaria uma floresta inteira se preciso fosse só para ver aquele sorriso e aquele suspense cravado nos olhos do menino. “Depois não se sabe porque as crianças dormem com as músicas de ninar…” – pensa, ao lembrar que naquela noite cantou apenas uma: “boi boi boi, boi da cara preta…”. Lembra como gostava da voz de sua mãe ao cantar uma especialmente feita para ela – assim sua mãe dizia – depois soube que a autoria era do Patativa do Assaré. Passou a não suportar as invenções da mãe, seu temperamento tão senhora de si, sua forma acintosa de se colocar perante ela, o pai e o irmão…tão diferente de todos. Se até uma música ela foi capaz de plagiar… Nunca conseguiu, enfim, alcançar os motivos maternos, nem mesmo quando descobriu o esconderijo do disco de Patativa…lá estava a fonte da melodia (a poesia Mãe Preta). Recorda que, flagrada pela mãe na sua descoberta, observou uma lágrima tímida descendo na face dela. A mãe se retirou sem nada dizer. O mestre de Assaré haveria de perdoá-la pela apropriação indevida, mas hoje ela própria cantava para o filho exatamente como o poeta a concebeu:

Dorme, dorme, meu menino,
Já chegou a escuridão
A treva da noite escura
Está cheia de papão

No teu sono terás beijos
Da rosa e do bugari
E os espíritos benfazejos
Te defendem do Saci

Dorme, dorme, meu menino,
Já chegou a escuridão
A treva da noite escura
Está cheia de papão

Dorme teu sono inocente
Com Jesus e com Maria
Até chegar novamente
O clarão do novo dia.

Agora era tomada por esta lembrança: ao final da canção, via a mãe se levantar cuidadosa e sair sorrateira pela porta, deixando um pequeno abajur a espantar a escuridão do quarto. E, deste mesmo modo, ela também faz com o filho…no mesmo instante, o mesmo ritual…

Mas só então, relembrando tudo…ouvindo a voz do pequeno a chamá-la…neste exato instante, ela entendia: no final do dia, todos acabamos, de uma maneira ou de outra, nos assemelhando.

6 comentários

  1. Magna,

    Creio que a vida seja um “passar a limpo” infinito. Estamos, sempre,aparando as arestas, descobrindo as verdadeiras fontes, tentando, de alguma forma, fazer diferente o que, na realidade, não passa de uma repetição menos rabiscada.

    Beijo,
    Inês

    • Maravilhosa tua colocação, Inês. Mas essa tua sabedoria só é possível depois de um tempo, esse tempo nosso que nos coloca de frente para nós mesmos. Maravilha, pescadora sábia! Obrigada.

      Tua última publicação no Dois Rios está simplesmente ótima! Adorei e achei a minha cara. Ao menos gostaria muito de poder fazer ‘nada’ mais vezes. Vibrei com a 2ª estrofe, Inês, quando ele acha o defeito insuportável do verbo nadar. Fabuloso.

      Beijão!
      Magna

  2. João Carlos
    2

    Certamente ela se descobriu também “plagiando”.Eu ninava meu trio apenas inventando letras das canções já existentes.Adaptações um tanto psicodélicas.Por minha vez,eu era um bebê tão lindo,mas tão lindo que ainda guardo na mente alguém cantando prá mim (não foi a minha mãe,claro): “dorme papão/que o neném vem te pegar…”.

    • Eita, João, tua presença sempre me traz uma alegria danada.
      Muito obrigada mesmo.
      Abração.
      Magna

  3. Essas nossas repetições imemoriais, que nos acompanham desde o começo de tudo, lá na nossa ancestralidade… Tudo guardado em alguma célula, que se multiplica em algum momento… Repetições, teatros da sobrevivência. Certamentes o Mestre de Assaré a perdoará, assim como o filho e ela própria se perdoará.
    Sei lá, o que essa vida é, e o que ela quer…

    Beijos, Magna!

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