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ENTRE PONTES E CATARATAS

ENTRE PONTES E CATARATAS

mai 04

Enquanto estou na sala de espera, o médico enxerga e retira o que há de errado, colocando outra lente no lugar. É quando me vem o seguinte relato:

_ O olho da sua mãe tem 71 anos. A córnea está intacta, nada atingiu a superfície, as nódoas ficaram na profundidade. Um aglomerado de meninos caídos, levantados, uma porção de eternidade, que o tempo nem sempre comporta, transbordou numa cascata, uma catarata. Despedidas inevitáveis, encontros inesperados, vida aos montes fizeram uma ponte unindo pupila e coração, daí o olho esquerdo acumular mais resíduos no caminho. Portanto, um cristalino novo foi colocado, flexível como deve ser.

_ Um cristalino novo, doutor?

_ Sim

_ Novo, mas com a mesma forma de olhar? Nada vai mudar, não é, doutor?

_ Minha querida, assim como o tudo, o nada é muita coisa. Pela excelente qualidade da ponte construída, arrisco-me a dizer que ela é giratória e elevatória, nada restando a sua mãe fazer, senão olhar.

E, logo após estas palavras, saiu, desvaneceu-se na primeira batida de porta do bloco cirúrgico. Fiquei com meus botões, assistindo entradas e saídas de muitos, cujos olhos eram transferidos pras mãos dos respectivos acompanhantes.

Daqui a pouco, outra abertura de porta a trará e me dirá que viu muita escuridão e sentiu frio. Seguiremos juntas para casa, onde será recebida por uma menina vivaz:

_ E aí, pirata, que tal irmos numa aventura de navio?

Sorrirá como resposta e escutará na despedida:

_ Fique boa logo, capitã!

3 comentários

  1. Saudade destas sementes… Adorei o médico!!! Quero um destes.

    • E eu com saudade de tuas pontes, Fabi. Mas, confesso, tenho transitado por elas, o problema é tecer algum comentário a tua altura.
      Obrigada pela tua presença aqui. Sempre deixas sementes vicejantes, benfazejas.
      Beijão.
      Magna

  2. João Carlos
    2

    Eita!

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