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REPUBLICAÇÃO DE ANIVERSÁRIO

REPUBLICAÇÃO DE ANIVERSÁRIO

ago 28

Após dois dias do aniversário do Sementeiras, lembro das velas que não apaguei, das sementes que esqueci de recordar. É o retrato da pressa dos atuais dias, onde a penumbra passageira nem sempre passa rápido. A estiagem do meu sertão deve ter deixado aqui algumas sequelas.

 

Lá secou o milho, a lagoa, o barreiro que matava a sede do gado. Resistiu, contudo, o jasmim e as gentes que outrora já persistiam, aconselhadas por São José.

 

Há que se arar o terreno e olhar pro céu inclemente. Jogar a semente na terra e cuidar de esperar.

Esperar

Esperar

Olhar pro céu

Ver nascer

Crescer

Colher

Para depois voltar a plantar

 

Quão simples parece…

 

Vejo que a peleja do sertanejo não nos diferencia no cotidiano urbano. O que muda são os instrumentos, as sementes. Permanecemos no terreno e esperamos novo dia, trabalhando incessantemente para que este chegue rápido…ao ritmo do estômago e do coração.

 

Mas, afinal de contas, esta deve ser uma publicação de aniversário, Deus do céu. Quatro anos de Sementeiras, amigos. Obrigada, Senhor. Obrigada, vocês.

 

Deixo então, como nas outras comemorações, esta republicação, escrita originalmente em 07 de outubro de 2008. Deixo sem alteração, embora o perfeccionismo atente demais em mexer, mas resisto:

 

SALA DE ESPERA

Vestido, na maioria das vezes, estampado por pequenas flores. A gola sempre arrumada, fechada em botões bem alinhados. Descem até a altura da cintura, singelamente marcada por um cinto fino, como são os seus gestos. O cinto não pode faltar, como também a bolsa que carrega o crochê, pacientemente confeccionado pelas mãos ágeis, embora sem pressa. Aprendeu que a pressa é realmente desnecessária; além de inimiga da perfeição, como todos dizem, é também do prazer.

Parece que foi ontem… Natural de Recife foi parar noutro Estado. Casou-se como convém a toda donzela da época e, além do marido, ganhou os seis filhos dele. Foi muito trabalho! Talvez por isto mesmo tenha concebido apenas um. Orgulha-se de ter deixado “todos de anel no dedo”, mas restam somente dois vivos. Mais de 30 anos em outra cidade não foram capazes de apagar as lembranças de Recife. Sua cria veio aportar aqui. Após o falecimento do esposo, retornou ela também à terra natal.

O tempo realmente passa. Amigo, camarada… Seguem firmes, ela e o tempo. Postura ereta, pernas cruzadas, cabeça baixa a trabalhar no crochê. Não entra sem dar um bom dia, não senta sem dar um sorriso. Vai caprichando, ora trabalhando ora procurando algo ou alguém com o olhar. Vê o relógio…ainda não passou. Ele, o tempo, ainda está lá. Seu filho também ainda está, vivo, porém sem tanta vida como ela. Parece um menino, pensa. É um menino, sente. “Separou-se da mulher e ficou assim, depressivo, parece que o mundo parou”. “Eu já tenho quase 90 anos, minha filha, não posso parar”. Seu olhar, no entanto, denuncia que gostaria. Gostaria de parar. E sua voz obedece: “por mim não saía de casa…acredita que não tenho mais coragem de ir a uma missa?”. Acredito. “Eu só saio para acompanhá-lo”.

A vida contada em anos parece se multiplicar. As rugas não negam o quanto viveu. Cada dor, cada sorriso, noites em claro, surpresas, alegrias inusitadas, tristezas inesperadas. Tudo está desenhado na face, no corpo inteiro. As pernas ainda sustentam o interesse pela vida, mas estão cansadas. Nem tudo é como o crochê, nem tudo pode ser refeito, muito menos usando a mesma linha. Lição que talvez o filho não tenha ainda aprendido para continuar reciclando tristeza e teimando queixume. “Ele deixou de dirigir”. Sim, acredito, ele, de fato, deixou de diriigir.

Olho aquele rosto simpático, bonito, aquele corpo esguio de 89 anos, os cabelos tão zelosamente penteados de um branco que ofusca os olhos apressados. Digo algo e provoco risos que me alegram demais. Penso que a vida vale a pena se não teimarmos em refazê-la como uma peça de crochê, se a fizermos com capricho, aceitando, contudo, as falhas como parte inevitável e importante do trabalho. Serão as provas do esforço e da nossa humanidade. Deus sabe de tudo isso e reconhece nossa tentativa, dando-nos sempre boas linhas para trabalharmos e inspiração para fazermos melhor. Sem dúvida, Ele ama os filhos e, certamente, ama muito as mães. Penso que preciso aprender mais com elas.

Gostaria de conversar mais, porém a hora chega, a espera acaba. É tempo de levar outra mãe em casa. Outra mãe e outra história, esta mais conhecida, cujo roteiro também ainda está sendo escrito.

 

 

11 comentários

  1. João Carlos
    1

    Salve Salve Amém Jesus! Que belo texto Magna! Comovente.Especialmente prá mim que vejo um colega triste com a partida de sua mãe, ontem. E noto que quase todo dia eu lembro da minha.Parabéns a elas que cumpriram suas missões e ficaram nos corações. E um parabéns rock and roll para o SEMENTEIRAS! Grande moleque de 4 anos de poesia e sabedoria! HARE!

    • “Grande moleque de 4 anos”…vindo de um querido menino, alegre e musical…
      Muito obrigada, João! E, olha, as sementes plantadas pelas mães ficam tão profundas que não tem como, de vez em quando, não chover dentro daqueles que estão “distantes” de suas mãos benfazejas. Sinal de alegria pelo que deixaram.
      Abração.
      Fique com Deus!
      Magna

  2. Edgar
    2

    A essa altura, quatro anos decorridos, permanece válida e viva em sua simbologia, a lição de resignação e persistência dessa velha senhora nonagenária que, tal qual uma Penélope, se põe a tecer sua interminável espera………………………………
    A vida – “lulusantamente” – “vem em ondas como o mar”. E a Seca – drama cíclico do nosso telurismo mais autêntico – repete-se inexoravelmente qual uma sina a consagrar poéticos heroísmos. ( Certa feita, em inútil pregação do meu idealismo ingênuo, auspiciei novos tempos em que “a seca não fosse o flagelo de Deus, nem a água o favor dos homens” ) ………………………….
    Bendito o SEMENTEIRAS,esperança de que um dia, realmente, irrigado pela Magna Fé, o Sertão possa virar um mar de prosperidade…!

    • Eita, meu amigo Edgar! E agora quem ficou sem palavras foi eu. Muitíssimo obrigada mesmo.
      Tenho um sertão dentro de mim e sei quando conseguem reconhecê-lo sem lamentações nem preconceitos.
      Deus te abençoe!
      Abração!
      Magna

  3. Um belo texto para comemorar um aniversário de muitos versos, crônicas, amor e zelo. Foi graças ao Sementeiras que te conheci, que descobri a poetisa, a escritora. E deixo minha homenagem nos versos que fiz para a reinauguração desse espaço:

    Semeando palavras (Dimas Lins)

    Em solo infértil,
    Planta.
    Nas mãos, sementes;
    No chão, palavras.
    Seria ilusão de vista
    O gesto da poetisa?


    Revolve a terra,
    Molha.
    Camponesa no deserto,
    Que lida com amor a lida.
    Seria ilusão de ótica,
    Brotar verso em terra exótica?


    Poetisa do vento,
    Sopra.
    Poemas espalhados com a brisa
    Bafejam minh’alma incontida.
    É sempre de boa lavra
    O campo que cultiva palavras.

    • Ah, meu querido amigo Dimas, mais uma vez você me emocionou com este poema que, desde a primeira vez, não sei se mereço. Mas, como sei que tua marca é a generosidade, aceito, agradeço e me alegro, deixando novamente as lágrimas rolarem.
      E, olha, o detalhe deste aniversário faltou dizer: é o primeiro em endereço novo, graças a você. Muito obrigada mesmo.
      Agradeço a Deus pelo Sementeiras, pelo Dimas Lins(impossível não dizer Estradar) por nos favorecer oportunidades tão preciosas de descobrir amigos como você. Aliás, aqui e agora tem uma penca preciosa deles.
      Abração!
      Magna

  4. Eu não sei o que dizer, mas ao menos quero que saibas que estive aqui, mais de três vezes, e em cada uma delas, não saí como entrei. Porque é assim que se dá Magna, não saio daqui sem estar saciada; nunca saí daqui com fome e com sede, me nutro de cada palavra que escreves, recolho-as, como sementes que planto nos meus jardins da vida, que florescem belas flores, quando as paisagens insistem em quererem ser áridas, ressequidas; então semeio meus campos com o que o Sementeiras me dá…

    Um beijo, querida!

    E deixo

    • Meu Deus, Val. E eu o que digo? Sei não, às vezes eu fico pensando como posso receber tanto. Tua presença, minha amiga, é tão preciosa que nem sabes avaliar o quanto. Esse tempo doido que nos está guiando não vai conseguir nunca tirar de nós a capacidade de nos emocionarmos e de nos alegrarmos com um simples riso ou “barroquismo” solto ao vento.
      Beijão bem grandão!
      E nem digo mais das saudades. Qualquer dia ligo no susto para sairmos imediatamente.
      Fique com Deus!
      Magna

  5. Pachelly Jamacaru
    5

    Querida amiga, passanddo aqui pra te deixar um enorme abraço! Vejo que andas semeando grãos da melhor semente do coração nesta página verde! Bela horta!

    Bençãos!

    • Obrigada, amigo. E eu fico muito feliz de te ter aqui de volta.
      Então retomaste os belos cliques recheados de poesia? Maravilha, Pachelly.
      Abração.
      Magna

  6. Sei que andas noutras demandas, Magna, querida, mas ainda assim, insisto em lhe dar uma tarefa, as regras estão lá no Canto, vamos ver no que isso vai dar.

    E que saudades de ver uma semente brotando no Sementeiras…

    Beijo!

Plante a sua semente para Pachelly Jamacaru

DimasLins