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SOBRE LIBERDADE, AMOR E CUIDADO

SOBRE LIBERDADE, AMOR E CUIDADO

jan 21

visitadepassarinho

Difícil falar sobre como pausas pro lanche no trabalho às vezes podem nos colocar asas à frente, bem ali, pertinho, quase à mão.

Exclamo:

_ Adoro passarinhos!

E nessa época digital, tento captar a imagem querendo uma foto pra série Olhos no Olhos. O dono da barraca diz todo orgulhoso:

_ Eu tenho um Vem-vem, Dona Magna!

Fico um pouco sem jeito por cerca de um segundo e disparo:

_Solte o bichinho, Seu Zeca!

_ Oxe, pensei que a senhora, já que gosta, tivesse um em casa!

_ Justamente por gostar demais é que eu não tenho, Seu Zeca.

_ Mas se eu soltar, ele morre.

Pois é, melhor comer minha salada de fruta, antes que eu permaneça invasiva e a pausa pro lanche vire uma infindável reflexão sobre liberdade, amor e cuidado.

No entanto, não há como não pensar como o bicho humano é curioso na sua humanidade…quantas vezes haveremos de prender para cuidar?

7 comentários

  1. EDGAR MATTOS
    1

    Bela reflexão, Magna! Lembrei-me de um poema de Bilac que muito me impressionou quando criança. Está no seu livro “Poesias Infantis”, meu primeiro contato com a poesia. O poema se chama “O Pássaro Cativo” e começa assim: ” Armas num galho de árvore o alçapão/E em breve uma avezinha descuidada batendo as asas cai na escravidão”. Depois é um hino à Liberdade. Uma lição que jamais esqueci. Como também essa de que os escravizados desaprendem a usar a liberdade e às vezes a ela não sobrevivem. Dependência que torna ainda mais cruel o ato de quem escraviza.
    Mas agora já chega, amiga. A hora do lanche já terminou…

    • Meu amigo Edgar, como agradecer um comentário que é uma verdadeira lição? Muito obrigada. Sentindo muita falta das palavras trocadas ao pé “do email” ou dos comentários que agora atendes com tanta generosidade.
      Penso que isto que acabas de dizer traduz o que eu não estava conseguindo com tanta simplicidade. “Os escravizados desaprendem a usar a liberdade e às vezes a ela não sobrevivem. Dependência que torna ainda mais cruel o ato de quem escraviza”. Isso. Vou repetir para ver se aprendo com esta sabedoria que naturalmente falas.
      Muito obrigada, amigo.
      Vou colocar o poema do Bilac. Lembrança como esta é necessário publicar.
      Abração!
      Magna
      Obs.:quando vou merecer uma visita tua?

    • obrigada, Edgar, por me enviar esta preciosidade:

      O PÁSSARO CATIVO (Olavo Bilac)

      Armas, num galho de árvore, o alçapão;
      E, em breve, uma avezinha descuidada,
      Batendo as asas cai na escravidão.

      Dás-lhe então, por esplêndida morada,
      A gaiola dourada;
      Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo:
      Porque é que, tendo tudo, há de ficar
      O passarinho mudo,
      Arrepiado e triste, sem cantar ?
      É que, crença, os pássaros não falam.
      Só gorjeando a sua dor exalam,
      Sem que os homens os possam entender;
      Se os pássaros falassem,
      Talvez os teus ouvidos escutassem
      Este cativo pássaro dizer:
      “Não quero o teu alpiste!
      Gosto mais do alimento que procuro
      Na mata livre em que a voar me viste;
      Tenho água fresca num recanto escuro
      Da selva em que nasci;
      Da mata entre os verdores,
      Tenho frutos e flores,
      Sem precisar de ti!
      Não quero a tua esplêndida gaiola!
      Pois nenhuma riqueza me consola
      De haver perdido aquilo que perdi …
      Prefiro o ninho humilde, construído
      De folhas secas, plácido, e escondido
      Entre os galhos das árvores amigas …
      Solta-me ao vento e ao sol!
      Com que direito à escravidão me obrigas?
      Quero saudar as pompas do arrebol!
      Quero, ao cair da tarde,
      Entoar minhas tristíssimas cantigas!
      Por que me prendes ? Solta-me covarde!
      Deus me deu por gaiola a imensidade:
      Não me roubes a minha liberdade …
      Quero voar ! voar ! …
      Estas cousas o pássaro diria,
      Se pudesse falar.
      E a tua alma, criança, tremeria,
      Vendo tanta aflição:
      E a tua mão tremendo, lhe abriria
      A porta da prisão …

  2. Domingos Sávio Maia
    2

    Estou aqui lendo e relendo a tua delicadeza , o teu tecido suave que rasga veloz as minhas linhas digitais . É desses assombros que a vida nos dá de presente que eu sou gratidão secular : ter Magna ao alcance dos olhos e de forma bissexta diante da luz .
    Dizer que neste lugar onde estou em busca do descanso e da paz tuas palavras me alcançam e são bálsamo perfeito , alento de um
    Céu imenso , o sabor do café torrado na hora e vindo ali bem perto do cafezal amigo . Sim . Sempre direi sim sorrindo . Querida Magna , gratidão

    • Nossa, o que dizer quando recebemos comentários-poemas?!
      Também digo sim, generoso amigo. Encosto-me nas tuas palavras pra ver se mergulho nesse deleite natural…se consigo beber esse teu café.
      Segue poetando e vivendo assim, sabendo que podemos levar conosco todo lugar que nos transmite o bem. Lição que ainda estou a aprender, mas acredito.
      Obrigada.
      Abração!
      Magna

  3. Domingos Sávio Maia
    3

    E então como lhe disse vai Quintana com muito apreço e carinho :
    Os poemas são pássaros que chegam
    não se sabe de onde e pousam
    no livro que lês.
    Quando fechas o livro, eles alçam vôo
    como de um alçapão.
    Eles não têm pouso
    nem porto;
    alimentam-se um instante em cada
    par de mãos e partem.
    E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
    no maravilhado espanto de saberes
    que o alimento deles já estava em ti…
    Mario Quintana

    • Que coisa linda!! Bendita a Poesia que nos salva do correr do dia…da escuridão, da opressão! Abençoado seja sempre tu, Domingos!

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